Além do espetáculo

Diário Gráfico de Renato Alarcão

2 Comments

Bom, já sabemos que a oficina foi foda, mas vamos explicar o por quê.

A palestra

Começamos pontualmente às 9h do sábado 17, quando Alarcão iniciou a palestra que duraria uma hora e meia. Uma hora e meia extremamente bem aproveitada. Entre falar sobre criatividade, hemisférios direito e esquerdo, sua trajetória com os diários gráficos e muitas, muitas referências fodas, a palestra me deu umas 5 páginas de anotações e vários insights que, sem dúvida, vão render alguns posts aqui e no Filosofia. Além, claro, de algumas coisas que vão me ajudar no projeto de conclusão.

Página de sketch lá do blog de Alarcão. Preciso dizer mais algo?

Como era de se esperar, conhecer um pouco da sua história fez dele um cara ainda mais foda. Mas até então, eu só sabia que o trabalho dele era foda – como se fosse possível dissociar os dois. Sobretudo, a palestra dele reforçou algo que se tem visto em todo lugar: a atividade artística e criativa se trata do processo e não do resultado: isso eleva a importância do caderno, das anotações; portanto, dos rabiscos e dos experimentos. Disso eu já sabia mas, hipócrita que sou, nunca havia praticado com afinco.

Acredito que nosso zeitgeist torna a internalização disso particularmente difícil, mas isso é assunto pra um outro post.

O caos criativo

A estrutura da oficina foi feita de modo que, no primeiro dia, produzíssemos o material que se tornariam as páginas dos diários – leia-se: nos sujássemos para cacete – e, no segundo, os montaríamos. Assim, cada um teria de produzir duas folhas A2 frente e verso, utilizando as mais diversas técnicas; em diferentes tipos de papel, inclusive. A intervalos que nos permitiam testá-las, Alarcão foi mostrando algumas técnicas: de fazer nossa tinta – muito foda – ao velho stencil com spray.

Ele nos apresentou ferramentas, técnicas e processos que – podem me chamar de ignorante – nunca tinha visto antes. Alguns, embora já tivesse ouvido falar, nunca tinha visto ninguém fazer; nem testado. Testar. E é aí que rola o desbloqueio criativo do qual ele falou na palestra.

Sem pressão. É só um sketch.

Isso foi particularmente forte para mim, cuja voz interna ficava importunando o tempo inteiro: “e aí, como vai ser essa oficina? será que você vai produzir bem? e se ficar uma bosta? que vergonha, não, tanta gente foda e você fazendo merda?”. E o que aconteceu foi que, quando Alarcão começou a primeira demonstração, o que ele disse foi “Eu não sei onde isso vai me levar, mas eu vou fazendo; aqui, essa mancha assim, vou pegar o vermelho agora…” e aí a voz se calou. Não é para ficar bonito, nem enxergar aquilo como resultado. E sim fazer.

Bom, e aí, foi fazer:

Créditos especiais a Markin que segurou os cartazes!

A surpresa

No segundo dia, a meladeira foi um tanto menor. Nosso objetivo foi cortar todas as folhas produzidas por todos em 4 partes, para então montarmos os diários em si. A dinâmica foi muito boa: divididos em grupos de 4, nós fomos escolhendo de dois em dois fólios para montar os cadernos para serem, claro, encadernados.

A galera escolhendo as folhas

Um momento muito interessante da encadernação foi editar os cadernos, por assim dizer. Ou seja, escolher a ordem em que as páginas ficariam e como iriam ficar as páginas duplas. Era incrível porque as páginas tinham sido produzidas por pessoas diferentes e nós conseguíamos ver uma relação entre as peças, de modo que elas ficaram muito bem umas ao lado das outras.

Então, depois de um dia de encadernação, – coisa que eu achei que nunca conseguiria fazer – rolou o sorteio dos diários entre os componentes de cada grupo. Com um toque de tortura, – porque foi um sorteio subtrativo, “esse caderno não será de…” – acabamos a oficina. Não fiquei com o caderno que fizemos, mas claro que o grupo todo quis tirar foto de todas as páginas; e assim fizemos.

O que me deixou impressionado foi pensar como aquelas folhas – as que eu tinha feito, particularmente toscas – se tornaram objetos tão valiosos, cadernos tão visualmente fortes. O que me restou de dúvida para investigação – que é aí que vai entrar o meu projeto de conclusão – foi como usar essas técnicas e essa transformação em artefato único a serviço de um conceito. Alarcão provavelmente sabe.

A cereja do bolo

Quando a maioria das pessoas foi embora, o pessoal do Superterra instigou ver os sketchbooks/diários de Alarcão. E aí: caralho. Era uma coisa impressionante. Eu não sei nem como descrever; era uma miríade de referências, ilustrações, colagens, papéis (e outros materiais), técnicas e anotações que mostravam claramente como o processo da própria oficina tinha se desenvolvido por entre aquelas páginas também.

Nesse ínterim, todos em cima de um dos cadernos, Alarcão tinha guardado o outro. Aí quando terminamos de ver aquele primeiro, cadê o outro? Aí fui eu lá pedir o outro para olharmos, no que ele diz “Pega aí. Tá na bolsa, abre lá“. No que eu penso, “como assim, ele simplesmente disse que eu podia abrir a bolsa dele?“. E sim, ele é foda nesse nível: sem frescura, sem mimimis, um puta professor e artista e prestativo para cacete. Como eu disse antes: da próxima vez que tiverem a oportunidade, façam esse negócio.

Enquanto tento me arrumar pra comprar alguns materiais essenciais para fazer meu próprio diário, luto para manter as informações quentes: e aqui está esse relato. Espero que seja de alguma valia para outrem.

Author: Eduardo Souza

Talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses, porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso. alemdoespetaculo.wordpress.com animusmundus.wordpress.com

2 thoughts on “Diário Gráfico de Renato Alarcão

  1. Acabei de fazer um aqui em São Luís e suas palavras descrevem muito bem esse curso, melhor dizendo essa experiência incrivelmente boa e libertadora de amarras que nos impedem de criar. Dos caos nascem as coisas! Bons cadernos pra vc!

    • Fico muito feliz que isso também represente tua opinião, Pricilla! 🙂 esse destrave é muito importante até para nos deixar mais empolgados pra produzir mais coisas! Mas, perdoe a pergunta, como foi que tu achou o blog aqui? não posso evitar ficar surpreso! 😀

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