Além do espetáculo

Review: Astronauta – Magnetar

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Tenho que admitir publicamente: nunca fui um menino que leu muito Turma da Mônica. Não sei se meus pais preferiam que eu lesse livros – aí sim, temos de montes – ou se eu simplesmente preferia jogar computador e brincar de pega-pega, mas, no frigir dos ovos, não lia Turma da Mônica. Um gibi ou outro de um primo, num consultório, na livraria, mas acho que nunca cheguei a comprar um sequer. Que fique claro: não o acho incompetente; muito pelo contrário. Hoje, com nenhuma alguma noção, vejo que é extremamente admirável ele sobreviver e criar tanto espaço em um ambiente tão árido quanto o mercado brasileiro.

Desabafo feito, podemos começar a entender o Magnetar de Danilo Beyruth.

Logo no prefácio, Maurício de Sousa descreve bem como Beyruth trata o Astronauta: ele o traz para um contexto filosófico e existencial muito interessante e tão profundo quanto outras obras que lidam com o tema, como O náufrago, citado por ele mesmo. Eu também não sei se Maurício tinha essa intenção quando criou o personagem, mas o fato de ele não ter um nome – que não Astrounauta Pereira– dá um impacto todo mais interessante a essa história: não é alguém específico, é um astronauta. E todos somos astronautas em outros níveis – o Pequeno Príncipe que o diga.

Seria o Pequeno Príncipe um astronauta?

Isso faz com que os momentos de insanidade e conflitos com o passado pelos quais o Astronauta passa criem uma conexão imediata com você e seu passado. E tudo isso é muito bem reforçado pela narrativa visual. As sacadas que Beyruth tem são fantásticas e o ritmo da graphic novel fica excelente. Sem falar que o universo que ele cria é muito coerente: a nave, as roupas, o Magnetar em si compõem o fruto de uma pesquisa muito boa. Enquanto isso, as dualidades do personagem geram uma profundidade muito interessante – o thrill de descobrir o universo e saudade de casa, sua infância e o computador, a solidão e as lembranças.

Com um background, arte e narrativa tão fodas, é perfeito, certo? Não. Beyruth poderia ter um bom roteirista ao seu lado. Em vários momentos, eu me senti meio em Dragon Ball Z; que é foda, mas convenhamos: cujos diálogos não são lá dos melhores. Principalmente por algumas das falas e pensamentos do Astronauta que parecem que vieram diretamente de desenhos da década de 80, constatando o óbvio. Acho que o Astronauta teria muito mais a ganhar em profundidade psicológica ficando calado em alguns momentos; que Beyruth nos deixasse contemplar a narrativa e a solidão do universo sem cuspir obviedade na nossa cara.

No fim das contas, a graphic novel se paga muito, muito bem. A Maurício de Sousa Editora ainda teve a delicadeza de lançar duas edições: uma de capa dura e outra não, com uma diferença de 10 reais. Particularmente, a edição de capa dura não me pareceu caro por R$30,00. Sem falar que os sketches que aparecem no final são fodas.E, ah, as cores de Cris Peter são absurdamente fodas.

Portanto, comprem e leiam! A Editora está fazendo um trabalho fantástico para o mercado no Brasil e eu fico muito feliz que eles tenham tido resposta com todos os projetos!

Author: Eduardo Souza

Talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses, porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso. alemdoespetaculo.wordpress.com animusmundus.wordpress.com

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