Além do espetáculo

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Se tornou difícil até pensar. Às vezes, o peso do mundo – do meu mundo, ao menos – parece demais. Tudo dentro de mim parece gritar: meus músculos doem antes mesmo da primeira contração, meus órgãos clamam pelo indefinido, minhas angústias tomam de assalto minha alma e massacram minhas esperanças e sonhos. Sento. Penso. Onde foram parar minha hercúlea força e homérica coragem? Tudo me pesa demais. Não consigo carregar esse peso. Solitário, olho diretamente nos olhos da Medusa. E ali fico.

Passar um tempo desenhando estátuas e estudando planos parecem ter ajudado bastante a esculpir o desenho, mas dessa vez eu deixei passar longe a energia da pose. Acabou se tornando bem estática. Vai ver é o fato de estar há muito tempo sem fazer nada de gesture…

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Não sabia se deveria entrar ali. A porta entreaberta permitia que o perfume a hipnotizasse, quase perdendo o controle de seus sentidos; as flores podem ser tão maliciosas quanto delicadas. O medo ia se dissipando. Calor ia-lhe corando a face. Já podia ver aquele enorme jardim, seus sentidos se misturando, se perdendo e se encontrando de maneiras diferentes a cada instante. Ali, conseguia tocar o agora enquanto as mais diferentes pétalas a tocavam em retorno. Nada mais existia – nem tempo, nem espaço – só Tudo, só o Uno, só o eterno devir, só o presente.

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Não sentia vontade de levantar. Seus músculos doíam, mesmo seu corpo letárgico sobre a cama nos últimos dias, isolado naquele quarto, vendo sua vida passar minuto a minuto. Após algum tempo, não sabia mais o que eram as horas. Respirava descompassado, sonhava ora sim, ora não, ora sim, ora não, seus movimentos lentos, se virava, desvirava, refazia o que havia feito. Quase nada.

Tinha dor, preguiça, cansaço. Melancolia. Não, não tinha nada. Quanta pretensão ter alguma coisa. Muito pelo contrário, não tinha, não era, não parecia sequer existir. Mas o tempo passava. Os dias lhe acenavam pela sombra atrás do pano sobre a janela.

Fez esforço, tentou levantar.

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Ela gostava da noite. Não tanto pelo silêncio, mas por sentir como se qualquer barulho – qualquer respiração – mudasse tudo. Como o bater das asas de uma borboleta.

Se maquiava. Não por que iria sair, mas para se ver no espelho. Gostava da ideia de que poderia se tornar outra coisa quando alterava seu rosto – gostava de perder quem era e imaginar outros seres ali nos seus olhos, sempre para se decepcionar. Após minutos de introspecção, encontrava a si mesma, que tanto tentou perder. Desviou o olhar. Não suportava sua imagem. Sua identidade. Sua.