Além do espetáculo

O réquiem

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Eu nunca gostei de fins de ano. Nessa época, paira uma névoa que me faz respirar um sentimento pesado. A urgência de tirar das costas o peso de mais um ano faz todos parecerem meio ensandecidos; há uma certa loucura no olhar daqueles que você encontra pela rua, em vez de serenidade.

Mas tem algo que aprendi esses dias: às vezes, é preciso fazer, viver e digerir o que não gostamos – talvez aquilo que mais odiemos – por que precisamos. No mínimo, constrói caráter, certo? Pois bem, nesse fim de ano, eu quero fechar um ciclo, quiçá vicioso. Eu quero olhar pra trás – coisa da qual também não sou lá muito fã – e avaliar o que eu fiz. E aceitar esse espírito de despedida, aceitar que, apesar de ser um dia que nasce como qualquer outro, é um dia simbólico. E eu bem sei o quanto o homem precisa de símbolos.

Não posso dizer que 2013 foi um ano doce, mas foi um ano que me ensinou algumas lições. Lições por vezes amargas, mas são essas que ficam mais vívidas na memória. Não quero lembrar de 2013 com pesar e tristeza, mas com até um pouco de vergonha de mim mesmo, pra não repetir o que fiz. Porque foi 2013 que me ensinou que nunca, nada está simplesmente destinado a mudar; muito pelo contrário, quando tudo estiver o mais propenso a estagnar, qualquer mudança pode ser criada.

Entrei em 2013 dizendo que tudo mudaria, querendo ou não. E, mesmo com a querência, nada mudou. Mas tudo mudou, porque acredito que eu mudei. Foi preciso esse ano, foi preciso de muito que não quis sentir ou pensar, mas acredito que, dessa vez, eu sei quem é que precisa fazer algo para mudar. E não é 2014, só por existir.

Consegui concluir o projeto de uma ilustração por dia. Claro que ficou aquém do que eu esperava. Muitas vezes perdi para o cansaço, perdi para a preguiça. Definitivamente perdi, talvez da metade do ano pra cá – com algumas exceções – para mim mesmo, esse que descobri ser meu maior problema. Talvez até essas ilustrações definam bem como foi o meu ano – isso, eu gostaria que acontecesse. No início, o drive de inspiração, de experimentação foi forte, mas fui me traindo, caindo apenas em esboços rápidos e cópias sem muito estudo. Mas com certeza mudei.

Mudei em viagens, mudei de trabalhos, mudei de mim mesmo. Me enfrentei todos os dias: mentindo, fugindo, encarando, me frustrando. Confundi minhas prioridades, fiz escolhas ruins. Me arrependi. Muito.

Estudei, aprendi. Tive momentos incríveis, passei por experiências únicas na vida. Tomei decisões. Sorri e amei. Ainda que Pessoa me diga que possa ter feito a realidade disso tudo  sem nunca ter feito nada disso. Conheci textos e obras que, sem dúvida, vou levar para o resto da minha vida.

Quero lembrar de 2013 com uma amargura carinhosa; sorrir, mas saber que isso tudo deve ficar lá, no passado. Quero ter a consciência de lembrar que 2013 foi um ano de transição, o que é quase sempre difícil e frustrante. Quero adentrar 2014 sem esperança, mas com motivação. Sem deslumbramentos, mas com sonhos.

Author: Eduardo Souza

Talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses, porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso. alemdoespetaculo.wordpress.com animusmundus.wordpress.com

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