Além do espetáculo

A insustentável leveza do ser

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“Os personagens de meu romance são minhas próprias possibilidades, que não foram realizadas. É o que me faz amá-los, todos, e ao mesmo tempo a todos temer. Uns e outros atravessaram uma fronteira que me limitei apenas a contornar.”

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Se isso que Kundera declara em A insustentável leveza do ser é verdade, das três, uma: 1) ou ele sabe mentir muito bem, 2) ou ele é muito parecido comigo ou ainda 3) no fundo, lá no fundo, todos somos muito mais parecidos entre si.

A insustentável leveza do ser é impressionante. É difícil saber por onde começar a falar desse livro. Acho que vou começar sem falar dele.

Neil Gaiman disse uma vez que aquelas histórias que você lê no momento exato da sua vida são aquelas que você vai carregar para sempre em um lugarzinho reservado de sua mente. E eu acho que essa é uma delas. Não sei se porque a recomendação de ler veio em uma tarde que foi muito significativa para mim ou se porque veio de alguém que admiro. Nem sei se porque as primeiras linhas que li foram por incrível sincronicidade. Mas sei que essa é daquelas que vão comigo.

Logo nas primeiras páginas, Kundera já nos avisa o que é o romance explicando de forma até sucinta o eterno retorno nietzscheano. E a analogia não é apenas de conteúdo, mas de forma. As 5 primeiras partes do livro são simétricas: A leveza e o peso, A alma e o corpo, As palavras incompreendidas, A alma e o corpo e A leveza e o peso e não apenas em seus títulos. Até nos títulos, ele deixa claro os extremos que o eterno retorno faz questão de unir, confundir e misturar.

E, justo nesse momento, eu começava minha obsessão pelo Ouroboros. Os mais próximos sabem como eu tenho lidado com isso. A verdade é que eu sempre admirei muito pensamentos orientais, principalmente budistas. A concepção de mundo deles me parece muito mais coerente, verdadeira e autônoma do que essas falsas dicotomias que o pensamento ocidental nos obriga a acreditar. Alguém já parou para pensar como seria um Yin-yang de Descartes? Por isso que alguns dos filósofos e intelectuais mais incríveis se voltaram para o Oriente, como Goethe, os Beatles e até o próprio Nietzsche.

tumblr_m7d401dQTn1qbmsleo1_1280O que Kundera faz é ficcionalizar de maneira primorosa o que é o eterno retorno, o que é o amor fati e o que poderia vir a ser a vontade de potência. Mas você não precisa saber nada disso – como eu não sei – para apreciar a habilidade de Kundera.

A densidade psicológica dos personagens é de se admirar. Tanto que, em muitos momentos, os acontecimentos ficam em segundo plano, apenas como pretextos para desenvolver a ficção de cada um deles. Um dos momentos mais interessantes do livro é quando ele trata do léxico de palavras incompreendidas entre dois dos personagens. Cada um dos temas dados é visto de maneira diferente entre os dois – às vezes, até oposta – e como isso influencia no relacionamento entre eles. São nossas histórias, nossas ficções, que entram em nossas vidas – modelam e são modeladas – quer queiramos, quer não.

E, talvez por isso, ele afirma a citação que coloquei no começo do texto. De certo modo, A insustentável leveza do ser é até uma ficção científica, já que é uma viagem do narrador para todas as vidas que ele poderia ter, todas as barreiras que ele poderia ter ultrapassado e que não ultrapassou – ou ultrapassou em outras dimensões; dimensões, talvez, representadas por seus personagens.

O que me deixou, de fato, intrigado, foi minha constante identificação com cada um dos personagens. A cada personagem, eu pensava “esse sou quase eu”. Ao final, vi que todos eram quase eu. Eu sou quase todos. E isso é pertubador. A questão da identidade é algo que mexe muito comigo, em particular, e ele foi no cerne da questão – os sonhos, os traumas, as atitudes e os pensamentos – e, com um bisturi, nos abriu a psique – assim como faz Tomas.

Enquanto lia e depois que terminei, fiquei louco para saber das impressões de alguém. Será que sou só eu? Ou todos somos mais parecidos do que imaginamos? Se for esse o caso, acredito que temos um narcisismo invertido, no qual somos obrigados a odiar nossas semelhanças nos outros; e por isso tanta intolerância no mundo. Ou será um narcisismo hiperbólico, no qual amamos tanto nossas imagens que qualquer brisa que crie ondulações na superfície do lago nos faz odiar qualquer distorção? Não sei a resposta, mas nesse caso, me parece que a completa negação e a completa afirmação parecem coincidir.

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Author: Eduardo Souza

Talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses, porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso. alemdoespetaculo.wordpress.com animusmundus.wordpress.com

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