Além do espetáculo

A transfiguração do lugar-comum

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Sem saber muito por que, eu comecei a ler Arthur Danto há uns meses; talvez tenha sido simplesmente por se tratar de um livro de teoria da arte. Só sei que acabou me ajudando bastante no meu projeto de conclusão de curso, embora eu nem o tivesse lido inteiro.

Danto é um teórico da arte e filósofo americano de quem eu nunca tinha ouvido falar na vida. Em uma pesquisa rápida na Wikipedia, deu pra ver que ele é uma pessoa importante para entender a arte desde depois de Duchamp. Aparentemente, ele cunhou o termo artworld em 64, apesar de que acredito que isso  já era uma ideia aceita.

Enfim. Eu entrei em contato com A transfiguração do lugar-comum naquelas promoções da Cosac Naify, quando me deixei fisgar pela sinopse:

Um dos mais interessantes livros da filosofia da arte, este ensaio examina a diferença ontológica entre trabalhos artísticos e objetos do cotidiano, à primeira vista indistinguíveis – especialmente após a consagração de tendências artísticas surgidas no século XX, como a arte conceitual, a arte pop, o minimalismo e a arte povera. Arthur C. Danto, professor emérito de filosofia na Universidade de Columbia e crítico de arte do jornal The Nation, em linguagem ágil e bem-humorada raciocina sobre a forma crítica com que o espectador deve relacionar-se com o objeto. Usando como exemplos artistas do pós-guerra, entre eles, Barnett Newman, Claes Oldenburg, Andy Warhol e Roy Lichtenstein, também cita Velázquez, Hegel, Wittgenstein e Cézanne para falar da filosofia e da arte como contrastes para as noções que tentam definir o real.

Como já disse que é da Cosac, desnecessário dizer que o projeto é foda, né. A diagramação, tipografia, a capa; tudo mais que excelente. O papel do miolo é muito bom e deu um corpo interessante a um livro de pouco mais de 300 páginas. A tradução, inclusive, também está de ótima qualidade. Mas vamos voltar ao conteúdo.

Logo no começo, Danto já mostra como ele escreve: entre asserções certeiras e uma ironia que causar inveja à maioria dos britânicos, ele teima em tecer uma teoria da arte nos moldes de uma teoria filosófica. Ele, inclusive, deixa claro no início que gostaria que esse diálogo se expandisse para além da filosofia e teoria da arte e fosse lida por não-filósofos.

É possível, mas, às vezes, não é a coisa mais agradável. Eu nunca li um livro de filosofia que formula um corpo teórico – arriscaria dizer analítico – tão lógico e preciso confessar que estranhei. Em muitos momentos, Danto se detém à árdua tarefa – para o leitor – de analisar algumas investigações linguísticas e artísticas através da Lógica. E isso se agrava pelo seu teor irônico: alguns exemplos parecem ser particularmente contextuais da época em que escreveu ou relacionado a pessoas do mundo da arte, que acabam passando batido. E ironia passando batido é um saco. Sem falar nos inúmeros arrodeios que ele faz para provar um ponto e justificar sua ironia.

Entretanto, essas partes mais maçantes são completamente redimidas quando ele começa a extrair as conclusões de suas elucubrações: parece que cada frase é uma revelação mindblowing. Nessas partes, eu me vi forçado a grifar quase que páginas inteiras, parando para reler muitas das frases e pensar caceeeeete…!. Além disso, acho que é legal lê-lo com o Google do lado, já que ele cita muitas, muitas obras. (É mais ou menos um Dan Brown da teoria da arte). Isso é um ponto positivo, ao meu ver, porque expande bastante seu repertório de obras de arte. Preciso reconhecer, também, que suas piadas irônicas funcionam muito bem na maioria das vezes. Talvez até, quando não funcionaram, foi por ignorância minha: de lógica ou de arte mesmo.

Por fim, acredito que Danto já começara a investigar elementos do mundo da arte que eu poderia dizer que se encaixam no que eu entendo como narrativas; talvez ele tivesse ganhado muito se àquela época já existissem estudos mais avançados com relação a isso. Para mim, o maior ganho de ter lido-o foi enxergar essa narratividade da obra e do mundo da arte.

Em linhas gerais, o livro é excelente. Para não-filósofos como eu, uma versão lite talvez fosse mais confortável de ler — e com certeza teria bem menos páginas. Mas não acredito que isso seja uma desvantagem, já que sempre é bom se expôr a novas informações. Se eu não tivesse tido contato com esse conteúdo da Lógica, eu não saberia o quão ignorante eu sou nisso.

Author: Eduardo Souza

Talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses, porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso. alemdoespetaculo.wordpress.com animusmundus.wordpress.com

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