Além do espetáculo

A metafísica do Carnaval do Recife

Leave a comment

ou 39 de 365

Já apertaram o botão da folia
Terreno de alegoria maior
Carnaval – Nação Zumbi

O carnaval sempre foi algo meio estranho para mim; ainda é. É uma mistura de êxtase e pavor, alegria e um terror monstruoso que eu não sei nem começar a explicar.

Agora, veja, eu sempre me vi como um hipster niilista – sim, eu estou me depreciando. Sempre que alguém me vem com uma notícia ou algo assim, eu tenho uma forte tendência de procurar um efeito colateral, uma consequência nefasta ou uma extremização nazista; sobretudo com o fato de evitar gostar de tudo o mais que as outras pessoas gostam. É claro, então, que eu não seria fã – nem de longe – de uma festa em que milhares de pessoas se juntam em alguns pólos para festejar – às vezes até sem muito pretexto.

Mas, não sei, ainda assim, me vejo contagiado por essa coisa. E, sim, é uma magia.

De repente, a cidade engarrafada se enche de decorações, pequenos coloridos em meio à sombra quente projetada pelos altos prédios dessa selvagem predatória e cruel mangue de pedra. Hoje, na noite de abertura da festa, já se vê no engarrafamento da Agamenon Magalhães senhorinhas com alguns adornos na tiara, cheiro de cerveja e urina, adolescentes com camisas coloridas, rindo alto, uma ode à liberação carnavalesca, sempre vigiada mas não tanto.

Ao longo das festas, vemos muita, muita – muita – gente: homens vestidos de mulheres – mulheres muito ou pouco vestidas de mulheres –, crianças, velhinhos e velhinhas, homens vestidos de homens, homens mais ou menos vestidos de homens. Enfim. Mas a magia é inegável. É incrível ver como as pessoas, outrora quase zumbis ganham uma vida de fato; ocupam as ruas, usam o espaço público – por certo, também nele urinam – e, em maior ou menor grau, se confraternizam em uma festa gigante e inigualável. Sim, é uma visão idealista, sim, você poderia dizer que é só um conglomerado de pessoas bebendo e mijando em todo lugar; mas então você seria idiota.

Negar essa festa é negar a cultura: ainda que essa cultura só se manifeste nesse quase-bacanal a céu aberto e que em todas as outras épocas do ano fique soterrada nos engarrafamentos homéricos e nas perfurações de fundação de todas as torres de múltiplas construtoras sedentas. Por um lado, é talvez o único evento em que a identidade das massas se manifesta, e, enquanto é o último bastião dessa representação popular, é também a semente de onde pode surgir toda uma forma de identidade e resposta daquelas pessoas.

Em último, carnaval é esperança.

photo392

Author: Eduardo Souza

Talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses, porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso. alemdoespetaculo.wordpress.com animusmundus.wordpress.com

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s