Além do espetáculo

Os lugares distantes de Tan

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There are some stories that you read on the right time; those stick with you forever.

Eu posso jurar que li essa citação de Neil Gaiman alguma vez na minha vida. Não me importa o fato de o próprio Google não ter conseguido achá-la; eu li. Posso até lembrar o contexto no qual eu a li e as pessoas a quem mostrei, a sensação que senti e as histórias que lembrei. Se existiu, não sei; mas não torna isso nem um pouco menos real.

Amor, desculpa, roubei tuas fotos! E o texto da quarta capa! :*

E foi na ingenuidade e fanboyismo de Gaiman que eu acabei conhecendo Shaun Tan. Sandman foi uma dessas histórias que eu li exatamente no tempo certo e, sim, vai estar comigo para sempre. A partir daí, comecei a acreditar em tudo que Gaiman diz. Não foi diferente quando eu vi que ele falou muito bem dos contos de lugares distantes de Shaun Tan:

Shaun tan é singular. é um artista de histórias curtas, mágicas e perfeitas, muitas vezes sem palavras. São, na verdade, sonhos que se pode trazer para o mundo da vigília, este em que vivemos, iluminando-o. São tramas que Kafka poderia ter contado, caso gostasse um pouco mais da vida. Shaun Tan cria beleza a partir das pequenas coisas e também daquilo que nunca existiu, mas nem por isso é menos real. Inventa enredos inesquecíveis que, acredite, vão deixar sua vida um pouco mais mágica.

No frenesi de uma promoção da Cosac Naify – livros com 50% de desconto, por favor –, Gabi me mostrou “olha, a quarta capa de Gaiman!” e, claro, isso foi o suficiente pra comprá-lo. Quando chegou, folheei-o, e o enconstei na estante, do lado de tantos outros livros por ler. Gabi que o pegou e começou a ler. Cada dia ela falava melhor desse livro – mas você não consegue entender a força da coisa quando outra pessoa fala. Gabi também já disse há algum tempo:

pra cada conto, um universo particular é criado através da ilustração, diagramação ou, perfeitamente, os dois.

shaun tan, autor e ilustrador australiano, cria mundos incríveis e a versatilidade das ilustrações é absurda. ele trabalha com pintura a óleo e tinta acrílica, grafite, guache, colagem, hidrocor… e todas essas técnicas são utilizadas com muito domínio, é fantástico.

E duas coisas são muito fodas em relação ao livro: 1) as histórias foram criadas a partir de rabiscos – fodas, claro – que Tan tinha em seu sketchbook; e, talvez consequência do primeiro, 2) as ilustrações são, de fato, narrativas à parte. Ele usa com perfeição a ilustração para criar o universo e o clima da história, mas não isso. As ilustrações expandem a narrativa do texto – não a complementa ou limita.

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alguns dos sketches que viraram histórias

E não que isso faça o texto ficar menos forte, de maneira alguma. Em uma breve biografia ao fim do livro, é mencionado que a vida suburbana (…) de sua infância foram temas de sua pintura quando adolescente; mas agora, apesar de se voltar para a fantasia, sua temática ainda transparece muito dessa vida. Não é à toa que são contos de lugares distantes. São lugares – nos quais nós conseguimos reconhecer traços marcantes da vida urbana  – mas são distantes, o que os torna mágicos, improváveis.

As casas, vizinhanças, histórias de família, meninos brincando na rua são temas muito constantes dos contos. Mas é nesse imenso vazio entre os lugares e a distância que Tan faz sua mágica. Os contos, curtíssimos, conseguem envolver de uma maneira indescritível. E aí você se pega olhando para as ilustrações por muito tempo, se apegando a cada detalhe e dialogando com o conto, com sua história, com a história da ilustração, para não deixar a história acabar.

Mas não adianta falar nada disso. Não dá para entender.

Você precisa pegar esse livro para ler.

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Author: Eduardo Souza

Talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses, porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso. alemdoespetaculo.wordpress.com animusmundus.wordpress.com

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