Além do espetáculo

A palavra é… Ética

Leave a comment

Hoje, quero discutir sobre o processo de criação e produção de uma página que foi publicada no caderno Galera JC no Jornal do Commercio, do dia 25 de junho.

Chegou pra mim o texto pronto, que vocês podem ler na imagem acima. Eu não sei se existe uma técnica ou um consenso entre ilustradores quanto a isso, mas eu costumo pensar que uma ilustração para um texto pode ter duas relações com ele:
1) suporte, que seria a ilustração que pode usar ou (1) a idéia geral do texto ou (2) um trecho específico como base conceitual, ou;

2) expansão, que seria usar o texto ponto de partida, e expandir o conceito, tanto de maneira abstrata ou mais tangível, mas não se limitando por ele

Nesse caso, eu optei pela expansão do conceito de ética. Primeiro, o público-alvo, infantil, não me permitia fazer algo muito abstrato. Depois, como vocês podem ler, o texto dá várias “cenas” exemplificando a ética, mas nenhuma das quais eu achei que ficaria legal. Isso em impedia de usar a ilustração na função de suporte, então, fui para a expansão. Ética é uma coisa difícil de se definir; tanto que no campo da filosofia, há intensas divergências ao longo da história. De qualquer maneira, o texto sugere uma idéia de ética, em linhas gerais, como ajudar ao próximo.

Decidi fazer um grupo de crianças trabalhando juntas para a realização de algo. Eu gosto quando a ilustração é bem integrada ao texto, ou ao título, no caso. Como o título da matéria era “A Palavra é… Ética”, eu decidi ilustrar as crianças, todas juntas pintando um cartaz com a palavra “ética” escrito. Eu, idiotamente, rasguei esse rascunho, mas o principal problema dele, era que eu havia pensado numa perspectiva quase que aérea. Isso dificultou bastante o posicionamento das crianças, porque elas ficariam na frente do cartaz, ocultando a palavra ética. Além disso, Gabi disse que não tinha nada a ver me disseram que o conceito estava meio distante.

Tentei, ainda, mudar pra uma vista frontal, com as crianças pintando o cartaz na parede, algumas usando uma escada para pintar algo bem alto, mas também mantinha os dois problemas. Me sugeriram fazer montando a palavra. Achei uma boa idéia, e decidi que eu poderia fazer a palavra “ética” formada por blocos a as crianças construindo-a.

Esboço inicial e as primeiras fases da digitalização

Fiz a palavra com a tipografia que seria mais fácil para subdividir em blocos, coloquei um efeito 3D tosco no Illustrator, imprimi e comecei a desenhar as crianças montando os blocos. Depois, eu escaneei e finalizei as linhas. Não foi difícil, quando eu comecei, notar que seria um saco fazer a palavra divida em vários blocos “aleatoriamente”. E eu até tentei.

Então, eu decidi fazer a palavra, realmente com blocos. Eu poderia desenhar cada bloco, e seria um exercício interessante de perspectiva e paciência. Mas, como eu não tinha tanto tempo, eu fiz como eu gostaria no 3Ds Max, renderizei, e coloquei na minha ilustração.


Primeiros renders e integração com o resto da ilustração. A partir daí, fui começando a trabalhar a iluminação de todos

Isso ajuda muita coisa, mas gera demanda de outro tipo de trabalho: trabalhar para equalizar a iluminação, o tom, enfim, integrar a imagem para não parecer uma colagem [BOLD]tão destoante (a não ser que seja essa a intenção, que não era). Eu quis, sim, deixar um pouco diferente, para que ficasse destacado.

Então, eu fui trabalhando os personagens e a palavra, quase que simultaneamente. Ainda tinham os blocos no chão, que eu pensei em usar do Illustrator e pintar por cima. Não deu certo. Além de pintar a cor por cima, eu realcei as luzes e sombras. Veja que o C e o A não foram pintados ainda. Eu dei um realce maior na iluminação, aumentando o contraste

Eu ainda tentei fazer os blocos de cores diferentes, deixando bem colorido, mas ia dar muuuito trabalho, também, e eu não dispunha de tanto tempo. Daria trabalho porque eu teria que retrabalhar as luzes e sombras de acordo com cada cor de bloco, e pra escolher as cores e atingir um equilíbrio legal, também seria puxado. Com relação ao fundo, eu escolhi o verde para dar mais contraste ao vermelho dos blocos, destacando a palavra (sim, eu fiquei com medo da palavra passar despercebida).

Não consegui deixar do mesmo estilo, e nem era necessário. Fiz outro render só com os cubos soltos, e integrei-os também. De novo, trabalhando a luz, integrando.

Render dos cubos soltos e antes e depois deles serem integrados na ilustração

Agora, fui refinando. Coloquei umas texturas, clareei um pouco (porque sempre escurece bastante na impressão), entre outras coisinhas. Ta-dá! Pronto. Foi só colocar na página. Aí eu coloquei o verde clareando, quase num degradê, pra o texto ir entrando embaixo.

Eu acho que a palavra ainda não ficou com uma visibilidade tão boa, no final das contas. Eu tive que dar uma ajeitada no acento, afastar um pouco da letra, pra deixar mais visível. Também, no dia seguinte de a ilustração ter saído, eu vi essa fonte: http://www.typegoodness.com/2009/09/lego-type/ que era EXATAMENTE o que eu queria, na verdade. É bem visível, é feita de lego, e, bom… acho que deu pra notar que ela seria ideal. Mas de todo jeito, não tem pra download, então, não daria pra usar ela, mas serviria de referência.

Mas o resultado final foi esse, e pronto!

Author: Eduardo Souza

Talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses, porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso. alemdoespetaculo.wordpress.com animusmundus.wordpress.com

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s